Já estive para te abandonar, sabes disso. Mas foram muitas mais as vezes do que aquelas que possas imaginar. Diariamente, com a mesma regularidade com que tenho saudades tuas, tenho ganas de te abandonar. Momentos de conflito interior, pelo menos um momento emotivo diário em que decido abandonar tudo. A ti, às mensagens, ao blog. Sim, porque tenho medo, terror de te perder, mas isso já to expliquei. E não quero, de forma alguma, repetir-me como que um soneto irritante, já te demonstrei este medo vezes suficientes, e tu já me asseguraste vezes suficientes que não me deixarás cair de esperanças tão altas. Mas desculpa se sou humana e esse medo persiste em mim. Mas desculpa se a verdade é mesmo essa e eu não consigo esquecer o meu passado. Desculpa. Sinto que devo pedir desculpas por isto porque nem sei até que ponto mereces uma pessoa assim, cujas feridas são difíceis de sarar, cuja saliva que mas lambe me pareça de textura corrosiva, ácida. Porque em tempos o foi. Até agora tem sempre existido um padrão ácido na minha vida que se sucede em ciclos exasperantes. Não sei se mereces (ou se estás pronto para) uma pessoa que te fará enlouquecer ao ponto de sofrer com a minha loucura que é a dificuldade em confiar em quem quer que seja. Desculpa se o mundo tem sido frio, cínico, pragmático e céptico para mim ao ponto de me envolver na sua camada crostosa de podridão.
Não te quero maçar, não te quero contar historias tristes. Mas a minha história é necessariamente maçuda e triste. Desculpa.
Discuti com uma amiga, a melhor. Chorei. Em três anos de amizade, ela viu-me chorar duas vezes. Duas. E a primeira foi porque me tinha zangado com ela.
Basicamente, eu amo a Rita. Incondicionalmente. Tento fazer disso quase que um segredo, temo que ela se aperceba que o meu amor por ela é doentiamente positivo a esse ponto e ela desate a magoar-me a torto e a direito porque, de qualquer das formas, aconteça o que acontecer, não vou conseguir deixar de amá-la.
Hoje ela fez-me chorar, mas não consigo afastar-me dela ou deixar de amá-la um bocadinho menos por um segundo que seja. Porque os amigos são assim, não nos protegem num mundo de mentiras, dizem-nos a verdade ainda que doa. E eu amo-a por isso, porque parece que me educa, é crua e insensível no seu discurso, nos seus ideais. Tenta explicar à irracionalidade o que pode ser uma emoção por vias racionais. Não a percebo. Admiro-a. É a pessoa que mais desprendida é dos seus próprios sentimentos que conheço, acredito mesmo, que alguma vez conhecerei. Por isso ela não consegue perceber os meus. Gostaria, adoraria, dava tudo para poder ser como ela: pouco sente, pouco sofre.
No entanto, quando discutimos, apercebo-me que racionalmente esse é o meu desejo, mas emocionalmente não. E em mim, em debates internos, quem ganha sempre é a emoção. É que por cada vez que o mundo dela choca com o meu, defendo até à morte o porquê de ela ser tão racional. E tento sempre explicar-lhe que existem discussões que ela vai ganhar racionalmente, mas que o coração nunca mente. A razão consegue anular a emoção, mas a emoção é mais forte que qualquer coisa. Que basta eu dizer-lhe “magoa-me” para nem sequer ser possível qualquer argumentação, qualquer gesto, sinal, palavra, símbolo, signo que não seja emocional, que venha do intelecto, da racionalidade, das comparações proporcionais e lógicas.
Mas adoro a Rita por ser racional e não se servir da mentira para tentar transpor-se à inabalável destreza da emoção, nunca. Ela é cruel, mas não mente, e hoje disse-me a maior verdade de todos os tempos.
“Tens de vencer esse medo, a rejeição é algo exterior à pessoa que te rejeita. Ela só existe em ti. A única pessoa que controla a tua dor és tu. Em dez gajos, oito vão rejeitar-te. E sabes que mais? Vais sofrer na vida, e muito. Mas isso não te impede de vivê-la”. Gostaria que ela me tivesse dito esta última frase da forma como eu a entendi. Mas não. O que ela quis dizer é que vivendo uma vida da forma que eu considero plena, vou sofrer, mas isso só eu decido. Segundo ela, eu deveria viver a vida de uma forma mais comedida, moderada, sem grandes paixões e bastantes precauções, afim de não sofrer muito, menos, ou nada. Segundo ela, só eu fui a culpada do meu sofrimento porque dei esse poder à pessoa que o provocou.
Por isso pensei abandonar-te, porque chorei por todos os homens que o fizeram comigo e eu deixei que fizessem de mim um mártir. Decidi apaixonar-me pelo tipo certo, à cobardia, meter-me na relação saudável, à cautela. Porque já te disse que não sei se o meu coração aguentará reconstruir-se muitas mais vezes, qualquer dia quebra-se de vez e é como o coração da Rita.
Mas, como sabes, nos meus debates internos, quem ganha é o coração, sempre.