domingo, 20 de julho de 2008

Já o inventamos. Não te deste conta disso mas já o fizemos. É um espaço só nosso. É um espaço de luzes quebradas e sonhos perdidos. Um espaço que percorre o universo ao satélite artificial mais próximo, contorna as estrelas, a lua, para depois voltar à terra. Ou não. Talvez seja um espaço somente além estelar, por entre suas crateras e poeiras. É um espaço que, infelizmente, foi-nos dado numa situação ingrata. Mas sabes, eu não me importo muito, porque acho que fizemos dele aquilo que quisemos. Quantas pessoas foram abençoadas com esta dificuldade? Eu sei, algumas. Mas ainda assim poucas. E nós temos a sorte de não nos ser exigida a materialidade que complica tudo, a materialidade que surge em prol de si mesma, e em detrimento de sentimentos castos e puros. Pareço tu a falares, já viste como me derrubas os ideais com a força da tua crença utópica?

É um espaço ingrato e cheio de mentiras, assim como o dizes. Mas mais vale uma falsa esperança que nenhuma esperança de todo, certo?

Bem, não é um espaço. É um lugar. Mas se formos optimistas o suficiente, podemos considerá-lo assim. É o que ele é na sua definição delimitada e redutora de um comum dicionário, apesar da nossa relação muitas vezes (senão sempre!) não fazer jus à convencionalidade exibida em dicionários e enciclopédias, definições e delimitações, pois esta relação ultrapassa quaisquer barreiras de natureza inteligível, e é o que tanto me agrada nela.

Agora pedes-me que faça uma viagem contigo. Só nós dois, para podermos ter o nosso espaço concretizado. Ainda queres que não me apaixone por ti assim? Lembra-te de quando te pedi para não me deixares cair de esperanças tão altas. Prometeste.

Imagino-me num qualquer quarto de pensão barata, imundo às custas da nossa preguiça. O meu cabelo despenteado, toalhas espalhadas pelo chão, cinzeiros por esvaziar. O sol afasta-se no horizonte, num pôr-do-sol lento visível da janela do quarto. Eu aproximo-me em pontas de pés de um chão frio para o melhor observar. Pegas numa máquina fotográfica abandonada em cima da mesa de cabeceira, e fotografas-me de improviso. Eu rio como que uma tola criança perdida de qualquer feliz brincadeira.
- Pára com isso! – digo-te, ainda entre sorrisos patetas.
- Espera, quero captar este momento -, respondes.

Sinto-me linda por saber que me queres fotografar sem maquilhagem, de roupão e cabelo mal amanhado. Naquele momento desejo ser só um bocadinho mais magra, um bocadinho mais perfeita só para ti.

É ironicamente agridoce saber que esta viagem pode custar-nos aquilo que de mais belo temos: esta ausência de espaço que nos frustra e que, por tanto frustrar, simultaneamente inspira enchendo-nos o coração de sonhos e a mente de aspirações.

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